segunda-feira, 26 de agosto de 2013

B.054.Banquete de Signos - Zé Ramalho

Discutir o cangaço com liberdade É saber da viola, da violência Descobrir nos cabelos inocência É saber da fatal fertilidade Descobrir a cidade da natureza Descobrir a beleza dessa mulher Descobrir o que der boniteza Na peleja do homem que vier, quando vier Descobrir o bagaço dos engenhos No melaço da cana mais um beijo Descobrir os desejos que não tem cura saracura no brejo na novena

B.053.Bloco da Solidão - Evaldo Gouveia/Jair Amorim

Ángústia, solidão Um triste adeus em cada mão Lá vai, meu bloco vai Só deste jeito é que ele sai Na frente sigo eu Levo um estandarte de um amor Amor que se perdeu No carnaval lá vai meu bloco E lá vou eu também Mais uma vez sem ter ninguém No sábado e domingo Segunda e terça-feira E quarta feira vem O ano inteiro é sempre assim Por isso quando eu passar Batam palmas para mim Aplaudam quem sorrir Trazendo lágrimas no olhar Merece uma homenagem Quem tem forças pra cantar Tão grande é minha dor Pede passagem quando sai Comigo só Lá vai meu bloco vai Laiá, laiá, laiá Laiá, laiá, laiá Lalaiá, lalaiá Laiá

B.052.Brasileiramente Linda - Belchior

Olha-me, oh, yes! oh, yes! Brasileiramente linda, oh, yes! oh, yes! Brasileiramente linda. Mente brasileira mente lindamente brasileira Envolve-me, oh, yes! oh, yes! Brasileiramente linda, oh, yes! oh, yes! Lindamente brasileira. Eu não vou querer... O amor somente é tão banal. Busco a paixão fundamental, Edípica e vulgar, De inventar meu próprio ser. Oh! senhora dona cândida, Coberta de ouro e prata: Descubra seu corpo-rosto, Nós queremos ver-lhe a alma. Antes que algum rouxinol Diga que é dia, é de manhã, O sol já vem: here comes the sun! Vem, estrela camponesa, Vênus, nuvem nua, lua nova, anjo fêmea Beija-me, oh, yes! oh, yes! Como se eu fosse um homem livre, oh, yes! oh, yes! Como um gesto primitivo, oh, yes! oh, yes! Do amor humano, animal, substantivo... Do amor humano, moreno, brasileiro. No brasil e no estrangeiro, O maior amor do ano no cinema americano.

A.126.Anos Dourados - Tom Jobim/Chico Buarque

Parece que dizes Te amo, Maria Na fotografia Estamos felizes Te ligo afobada E deixo confissões No gravador Vai ser engraçado Se tens um novo amor Me vejo a teu lado Te amo? Não lembro Parece dezembro De um ano dourado Parece bolero Te quero, te quero Dizer que não quero Teus beijos nunca mais Teus beijos nunca mais Não sei se eu ainda Te esqueço de fato No nosso retrato Pareço tão linda Te ligo ofegante E digo confusões no gravador E desconcertante Rever o grande amor Meus olhos molhados Insanos, dezembros Mas quando me lembro São anos dourados Ainda te quero Bolero, nossos versos são banais Mas como eu espero Teus beijos nunca mais Teus beijos nunca mais

A.125.Achados e Perdidos - Gonzaguinha

Quem me dirá onde está Aquele moço fulano de tal (Filho, marido, irmão, namorado que não voltou mais) Insiste os anúncios nas folhas Dos nossos jornais Achados perdidos, morridos Saudades demais Mas eu pergunto e a reposta É que ninguém sabe Ninguém nunca viu Só sei que não sei Quão sumido ele foi Sei é que ele sumiu E que souber algo Acerca do seu paradeiro Beco das liberdades Estreita e esquecida Uma pequena marginal Dessa imensa Avenida Brasil

A.124.Almanaque - Chico Buarque

Ó menina vai ver nesse almanaque Como é que tudo isso começou Diz quem é que marcava o tic-tac Que a ampulheta do tempo disparou Se mamava de sabe lá que a teta O primeiro bezerro que berrou me diz, me diz Me responde por favor Prá onde vai o meu amor Quando o amor acaba Quem penava no sol a vida inteira Como é que a moleira não rachou me diz, me diz Quem tapava esse sol com a peneira E foi que a peneira esfuracou Me diz, me diz, me diz por favor Quem pintou a bandeira brasileira Que tinha tanto lápis de cor me diz, me diz Me responde por favor Prá onde vai o meu amor Quando o amor acaba Diz quem foi que fez o primeiro teto Que o projeto não desmoronou Quem foi esse pedreiro esse arquiteto E o valente primeiro morador, me diz, me diz Me diz um morador Diz quem foi o inventor do analfabeto E ensinou o alfabeto ao professor me diz, me diz Me responde por favor Prá onde vai o meu amor Quando o amor acaba Quem é que sabe o signo do capeta E o ascendente de deus nosso senhor Nosso senhor Quem não fez a patente da espoleta Explodir na gaveta do inventor me diz, me diz Me diz por favor Quem tava no volante do planeta Que o meu continente capotou Me responde por favor Prá onde vai o meu amor Quando o amor acaba Vê se vê no almanaque, essa menina Como é que termina um grande amor Me diz, me diz Se adianta tomar uma aspirina Ou se bate na quina aquela dor Me diz, me diz Me diz daquela dor Se é chover o ano inteiro chuva fina Ou se é como cair do elevador Me responde por favor Prá que que tudo começou Quando tudo acaba...

A.123.Avião - Djavan

Pode quebrar, sofrer, cair, descer, contorcer de dor Não vou mais me prender a você , fazer o mesmo show Vou bater na porta da vida , receber e pagar Sem ter que me entregar a ninguém , seu muito pra mim É pouco eu quero a paz e viver solto Vai dizer que sou louco... sou não Eu me cansei de ser seu avião não vou voar não Desta vez... Nem me conformar com pouco Seu mundo pra mim é tolo

A.122.Ave Coração - Clodô/Zeca Bahia

Eu sei que existe por ai uma andorinha solta Procurando um verão que se perdeu no tempo Cansou de ser herói do espaço E quer a companhia de outros pássaros É que seu coração de ave, não agüenta tanta solidão Eu sei que eu ando por ai, sou andorinha solta E nem sei a estação em que estou vivendo Não quero ser herói de nada Só quero a companhia de outros braços É que meu coração de homem, voa alto como um pássaro

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A.121.Ave - Ivan Lins/Vitor Martins

Ave, meu condor Ave, planador Sobre os arraiais Sobre os capitais Voa sobre os Andes Acima dos bravos e dos serenos Acima dos grandes e dos pequenos Por sobre a nossa América Ave, meu condor Sombra de avião Sobre os seringais Sobre os pantanais Reina por onde passa Ao som de guitarras, violões e harpas Oh, nuvem de penas, olhos e garras Vigia a nossa América

A.120.Atlântida - Roberto de Carvalho/Rita Lee

Atlântida Reino perdido De ouro e prata Misteriosa cidade Atlântida Terra prometida Dos semideuses Das sereias douradas Eu sou o pescador que parte toda manhã Em busca do tesouro perdido no fundo do mar Desde o Oiapoque Até Nova York se sabe Que o mundo é dos que sonham Que toda lenda é pura verdade Glub, glub, chuá, chuá Glub, glub, chuá

A.119.Amor Barato - Chico Buarque

Eu queria ser Um tipo de compositor Capaz de cantar nosso amor Modesto Um tipo de amor Que é de mendigar cafuné Que é pobre e às vezes nem é Honesto Pechincha de amor Mas que eu faço tanta questão Que se tiver precisão Eu furto Vem cá, meu amor Aguenta o teu cantador Me esquenta porque o cobertor é curto Mas levo esse amor Com o zelo de quem leva o andor Eu velo pelo meu amor Que sonha Que enfim, nosso amor Também pode ter seu valor Também é um tipo de flor Que nem outro tipo de flor Dum tipo que tem Que não deve nada a ninguém Que dá mais que maria-sem-vergonha Eu queria ser Um tipo de compositor Capaz de cantar nosso amor Barato Um tipo de amor Que é de esfarrapar e cerzir Que é de comer e cuspir No prato Mas levo esse amor Com zelo de quem leva o andor Eu velo pelo meu amor Que sonha Que enfim, nosso amor Também pode ter seu valor Também é um tipo de flor Que nem outro tipo de flor Dum tipo que tem Que não deve nada a ninguém Que dá mais que maria-sem-vergonha

A.118.Amor de Índio - Beto Guedes/Ronaldo Bastos

Tudo que move é sagrado E remove as montanhas Com todo o cuidado, meu amor. Enquanto a chama arder Todo dia te ver passar Tudo viver a teu lado Com arco da promessa Do azul pintado, pra durar. Abelha fazendo o mel Vale o tempo que não voou A estrela caiu do céu O pedido que se pensou O destino que se cumpriu De sentir seu calor E ser todo Todo dia hei de viver Para ser o que for E ser tudo Sim, todo amor é sagrado E o fruto do trabalho É mais que sagrado, meu amor. A massa que faz o pão Vale a luz do teu suor Lembra que o sono é sagrado E alimenta de horizontes O tempo acordado, de viver. No inverno te proteger, no verão sair pra pescar No outono te conheçer, primavera poder gostar No estio me derreter Pra na chuva dançar e andar junto O destino que se cumpriu

A.117.As Vitrines - Chico Buarque

Eu te vejo sumir por aí Te avisei que a cidade era um vão Dá tua mão, olha prá mim Não faz assim, não vá lá, não Os letreiros a te colorir Embaraçam a minha visão Eu te vi suspirar de aflição E sair da sessão frouxa de rir Já te vejo brincando gostando de ser Tua sombra a se multiplicar Nos teus olhos também posso ver As vitrines te vendo passar Na galeria, cada clarão É como um dia depois de outro dia Abrindo um salão Passas em exposição Passas sem ver teu vigia Catando a poesia Que entornas no chão

A.116.As Cartas - Chico Buarque

Ilusão Ilusão Veja as coisas como elas são A carroça A dama O louco O trunfo A mão O enforcado A dançarina Numa cortina O encarnado A dançarina, o encantado O encarnado numa cortina O enforcado Ilusão Ilusão Veja as coisas como elas são O curinga A noiva O noivo O sim O não O prateado O cavaleiro No seu espelho Desfigurado O cavaleiro, o prateado Do outro lado do seu espelho Desfigurado Ilusão Ilusão Veja as coisas como elas são A fortuna A roda O raio A imensidão O estrelado O obscuro O seu Embaralhado

A.115.As Minhas Meninas - Chico Buarque

Olha as minhas meninas As minhas meninas Pra onde é que elas vão Se já saem sozinhas As notas da minha canção Vão as minhas meninas Levando destinos Tão iluminados de sim Passam por mim E embaraçam as linhas Da minha mão As meninas são minhas Só minhas na minha ilusão Na canção cristalina Da mina da imaginação Pode o tempo Marcar seus caminhos Nas faces Com as linhas Das noites de não E a solidão Maltratar as meninas As minhas não As meninas são minhas Só minhas As minhas meninas Do meu coração

A.114.A Marcha do Povo Doido - Gonzaguinha

Confesso Matei a Dana de Teffé E muitos mais se você quiser Eu sou qualquer José Mané Dos Santos, da Silva, da Vida Confesso A culpa pela carestia E pela crise de energia Eu sou o dono da OPEP Ou Pepsi, ou Coca ou Cola Confesso Nem precisa bater E confessar me alivia Vem meu bem Me condena com aquela anistia Me manda logo pra cadeia Garanta Um pouco a minha poupança Pois pelo menos estando em cana A minha pança Vai ter um pouco de aveia Ou feijão com areia

A.113.A Voz do Dono e o Dono da Voz - Chico Buarque

Até quem sabe a voz do dono Gostava do dono da voz Casal igual a nós, de entrega e de abandono De guerra e paz, contras e prós Fizeram bodas de ace......tato de fato Assim como os nossos avós O dono prensa a voz, a voz resulta um prato Que gira para todos nós O dono andava com outras doses A voz era de um dono só Deus deu ao dono os dentes Deus deu ao dono as nozes Às vozes Deus só deu seu dó Porém a voz ficou cansada após Cem anos fazendo a santa Somhou se desatar de tantos nós Nas cordas de outra garganta A louca escorregava nos lençóis Chegou a sonhar amantes E, rouca, regalar os seus bemóis Em troca de alguns brilhantes Enfim a voz firmou contrato E foi morar com novo algoz Queria se prensar, queria ser um prato Girar e se esquecer, veloz Foi revelada na assembléia-atéia Aquela situação atroz A voz foi infiel, trocando de traquéia E o dono foi perdendo a voz E o dono foi perdendo a linha que tinha E foi perdendo a luz e além E disse: Minha voz, se vós não sereis minha Vós não sereis de mais ninguém

A.112.A Voz do Povo - João do Vale/Luiz Vieira



Meu samba é a voz do povo
Se alguém gostou
Eu posso cantar de novo

Eu fui pedir aumento ao patrão
Fui piorar minha situação
O meu nome foi pra lista
Na mesma hora
Dos que iam ser mandados embora

Eu sou a flor que o vento jogou no chão
Mas ficou um galho
Pra outra flor brotar
A minha flor o vento pode levar
Mas o meu perfume fica boiando no ar

A.111.A Mais Bonita - Chico Buarque

Não, solidão, hoje não quero me retocar Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas Deixo que as águas invadam meu rosto Gosto de me ver chorar Finjo que estão me vendo Eu preciso me mostrar Bonita Pra que os olhos do meu bem Não olhem mais ninguém Quando eu me revelar Da forma mais bonita Pra saber como levar todos Os desejos que ele tem Ao me ver passar Bonita Hoje eu arrasei Na casa de espelhos Espalho os meus rostos E finjo que finjo que finjo Que não sei

A.110.A Página do Relâmpago Elétrico - Beto Guedes/Ronaldo Bastos

Abre a folha do livro Que eu lhe dou para guardar E desata o nó dos cinco sentidos Para se soltar Que nem o som clareia o céu nem é de manhã E anda debaixo do chão Mas avoa que nem asa de avião Pra rolar e viver levando jeito De seguir rolando Que nem canção de amor no firmamento Que alguém pegou no ar E depois jogou no mar Pra viver do outro lado da vida E saber atravessar Prosseguir viagem numa garrafa Onde o mar levar Que é a luz que vai tescer o motor da lenda Cruzando o céu do sertão E um cego canta até arrebentar O sertão vai virar mar O mar vai virar sertão Não ter medo de nenhuma careta Que pretende assustar Encontrar o coração do planeta E mandar parar Pra dar um tempo de prestar atenção nas coisas Fazer um minuto de paz Um silêncio que ninguém esquece mais Que nem ronco do trovão Que eu lhe dou para guardar A paixão é que nem cobra de vidro E também pode quebrar Faz o jogo e abre a folha do livro Apresenta o ás Pra renascer em cada pedaço que ficou E o grande amor vai juntar E é coisa que ninguém separa mais Que nem ronco de trovão Que eu lhe dou para guardar