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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

C.214.Carolina - Chico Buarque


Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar

Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar

Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

C.212.Com açucar e com afeto - Chico Buarque


Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa, qual o quê
Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é um operário, sai em busca do salário
Pra poder me sustentar, qual o quê
No caminho da oficina, há um bar em cada esquina
Pra você comemorar, sei lá o quê
Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo, sei que alegre ma non troppo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão, qual o quê
Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer, qual o quê
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A.437.Assentamento - Chico Buarque


Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
-- contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração
Tôo
(apud Guimarães Rosa)

Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora

Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora

Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

A.421.A volta do malandro - Chico Buarque


Eis o malandro na praça outra vez
Caminhando na ponta dos pés
Como quem pisa nos corações
Que rolaram nos cabarés

Entre deusas e bofetões
Entre dados e coronéis
Entre parangolés e patrões
O malandro anda assim de viés

Deixa balançar a maré
E a poeira assentar no chão
Deixa a praça virar um salão
Que o malandro é o barão da ralé

A.417.A ostra e o vento - Chico Buarque


Vai a onda
Vem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento
Vento

Nem um barco
Nem um peixe
Cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminha ao vento
Vento

Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento
Vento, vento

A.416.A noiva da cidade - Francis Hime/Chico Buarque


Tutu-marambá não venha mais cá
Que a mãe da criança te manda matar
Tutu-marambá não venha mais cá
Que a mãe da criança te manda matar
Ai, como essa moça é descuidada.
Com a janela escancarada quer dormir impunemente
Ou será que a moça lá no alto
Não escuta o sobressalto do coração da gente
Ai, quanto descuido o dessa moça.
Que papai tá lá na roça e mamãe foi passear
E todo marmanjo da cidade
Quer entrar nos versos da cantiga de ninar
Pra ser um tutu-marambá
Ai, como essa moça é distraída.
Sabe lá se está vestida ou se dorme transparente
Ela sabe muito bem quando adormece
Está roubando o sono de outra gente
Ai, quanta maldade a dessa moça.
E, que aqui ninguém nos ouça ela sabe enfeitiçar.
Pois todo malandro da cidade
Quer entrar nos sonhos que ela gosta de sonhar
E ser um tutu-marambá

Coda:

Boi, boi, boi
boi da cara preta
Pega essa menina que tem medo de careta
Boi, boi, boi
boi da cara preta
Pega essa menina que tem medo de careta

segunda-feira, 24 de julho de 2023

O.134.O cio da terra - Milton Nascimento/Chico Buarque


Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel, se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
De fecundar o chão.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

M.127.Meia noite - Edu Lobo/Chico Buarque


Se a noite não tem fundo
O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Q.167.Que será - Chico Buarque


Oh que será, que será
Que andan suspirando por las alcobas
Que andan, susurrando en versos y trovas
Que andan, escondiendo bajo las ropas,
Que andan en las cabezas y anda en las bocas
Que va encendiendo velas en callejones
Que estan hablando alto en los bodegones
Estan en el mercado, está con certeza
En la naturaleza, será que será
Que no tiene certeza, ni nunca tendrá
Lo que no tiene arreglo, Ni nunca tendrá
Que no tiene tamaño
O que será, que será?
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos dos desvalidos
Em todos os sentidos...
Será, que será?
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido...
Oh que será, que será
Que todos los avisos no van a evitar
Porque todas las risas van a desafiar
Y todas las campanas van a replicar
Porque todos los signos van a consagrar
Porque todos los niños se habrán de zafar
Y todos los destinos se irán a encontrar
Y el mismo padre eterno que nunca fue allá
Al ver aquel infierno lo bendecirá,
Que no tiene gobierno, ni nunca tendrá
Que no tiene vergüenza, ni nunca tendrá
Lo que no tiene juicio

Q.166.Querido amigo - Chico Buarque


Querido amigo perdoname por favor
Si no te hago una visita
Mas como ahora aparece un portador
Mando noticias en la cintaAquí en la tierra están jugando y gritan gol
Hay mucho samba mucho choro y rock'n'roll
A veces llueve y otros días brilla el sol
Mas yo quiero decirte que la cosa aquí está negraEs duro piedra de llevar la situación
Que todos van llevando con tesón porfiadamente
Que todos van bebiendo pues también sin aguardiente
No hay quien aguante la cuestiónQuerido amigo no pretendo provocar
Ni atizar tus añoranzas
Pero me ocurre que ya no puedo evitar
Darte noticias sin tardanzaAquí en la tierra están jugando y gritan gol
Hay mucho samba mucho choro y rock'n'roll
A veces llueve y otros días brilla el sol
Mas yo quiero decirte que la cosa aquí está negraMucha pirueta al ir buscando el ganapán
Y todos van buscando con ardor y con desgarro
Y la gente va fumando pues también sin un cigarro
No hay quien aguante la cuestiónQuerido amigo te quise telefonear
Mas la tarifa no hace gracia
Ando afligido porque te quiero dejar
Al corriente de lo que pasaAquí en la tierra están jugando y gritan gol
Hay mucho samba mucho choro y rock'n'roll
A veces llueve y otros días brilla el sol
Mas yo quiero decirte que la cosa aquí está negraHaciendo muecas al tragar el chaparrón
Y todos van tragando cada sapo en el camino
Y la gente se va amando pues también sin un cariño
No hay quien aguante la cuestiónQuerido amigo yo te quería escribir
Pero el correo andaba arisco
Si me permiten trataré de remitir
Noticias frescas en el discoAquí en la tierra están jugando y gritan gol
Hay mucho samba mucho choro y rock'n'roll
A veces llueve y otros días brilla el sol
Mas yo quiero decirte que la cosa aquí está negraLa marieta manda un beso para vos
Un beso a la familia, a cecilia y a los niños
Y francis aprovecha y también manda cariños
A todos por igual
Adiós

terça-feira, 2 de agosto de 2022

V.098.Valsa Rancho - Chico Buarque/Francis Hime


Valsa rancho
me faz esquecer
esperar
em mil lágrimas, mil lágrimas, mil lágrimas
Valsa rancho
me faz responder
transbordar
em mil lágrimas, mil lágrimas, mil lágrimas

mil abraços
mil fracassos
meu delírio, teus pedaços
teu calor
seja feito o teu desejo
seja um beijo
seja como for
quantos braços
mil regaços
mil e uma noites
faz uma outra vez
como se ainda fosse
como é doce
como voce fez

me valsa
me rancha
me faz
me deixa
que criança
que esperança
que prazer
que saudade
que maldade
piedade
que fartura
que loucura
que cruel tortura
nos carinhos teus
minha santa criatura
diz que jura
pela mãe de Deus

Valsa rancho
me faz desfazer
Descansar
de mil lágrimas, mil lágrimas, mil lágrimas
Valsa rancho
me faz duvidar
delirar
Prometer
desatar
responder
transbordar
devolver
me acabar
devagar
desmaiar
com você

sexta-feira, 29 de abril de 2022

T.113.Todos os olhos te olham - Pablo Milanês Vs: Chico Buarque


Todos os olhos te olham
E todas as mãos te tocam
Todas as palavras que provocas
vão gritando generosas
Que te ansiam
Gostas de aludir ao sexo
Como um animal travesso
Gostas de despertar os demônios
Quando tens o mundo em torno
E o dominas
Causas desconcerto
Quando expões teus pensamentos
Em qualquer ambiente tu semeias confusão
E é como um alívio cada noite
Quando frágil, sem remorsos
Vens pedir minha atenção
Fecho os meus olhos, se vejo
Tremem minhas mãos, se tocam
E não sei o que faço dessa boca
Quando sinto que teu corpo é
Meu somente...
Causas desconcerto
Quando expões teus pensamentos
Em qualquer ambiente tu semeias confusão
E é como um alívio cada noite
Quando frágil, sem remorsos
Vens pedir minha atenção
Fecho os meus olhos, se vejo
Tremem minhas mãos, se tocam
E não sei o que faço desta boca
Quando sinto que teu corpo é
Meu somente...

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

M.105.Mar e Lua - Chico Buarque


Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepio
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Rolando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

segunda-feira, 29 de março de 2021

A.294.Aquela Mulher - Chico Buarque


Se você quer mesmo saber
Por que ela ficou comigo
Eu digo que não sei
Se ela ainda tem seu endereço
Ou se lembra de você
Confesso que não perguntei

As nossas noites são
Feito oração na catedral
Não cuidamos do mundo
Um segundo sequer
Que noites de alucinação
Passo dentro daquela mulher
Com outros homens, ela só me diz
Que sempre se exibiu
E até fingiu sentir prazer
Mas nunca soube, antes de mim
Que o amor vai longe assim
Não foi você quem quis saber?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

S.076.Samba do Grande Amor - Chico Buarque


Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim o grande amor
Mentira
Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira
Fui muito fiel
Comprei anel
Botei no papel o grande amor
Mentira
Reservei hotel
Sarapatel
E lua-de-mel em Salvador
Fui rezar na Sé
Pra São José
Que eu levava fé no grande amor
Mentira
Fiz promessa até
Pra Oxumaré
De subir a pé o Redentor
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

S.077.Suburbano Coração - Chico Buarque


Quem vem lá
Que horas são
Isso não são horas, que horas são
É você, é o ladrão
Isso não são horas, que horas são
Quem vem lá
Blim blem blão
Isso não são horas, que horas são

A casa está bonita
A dona está demais
A última visita
Quanto tempo faz
Balançam os cabides
Lustres se acenderão
O amor vai pôr os pés
No conjugado coração
Será que o amor se sente em casa
Vai sentar no chão Será que vai deixar cair
A brasa no tapete coração

Quando aumentar a fita
As línguas vão falar
Que a dona tem visita
E nunca vai casar
Se enroscam persianas
Louças se partirão
O amor está tocando
O suburbano coração
Será que o amor não tem programa
Ou ama com paixão
Mulher virando no sofá
Sofá virando cama coração
O amor já vai embora
Ou perde a condução
Será que não repara
A desarrumação
Que tanta cerimônia
Se a dona já não tem
Vergonha do seu coração

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

C.153.Choro Bandido - Edú Lobo/Chico Buarque


Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa, são bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas e os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim: você nasceu para mim, você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim: me leve até o fim, me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa, são bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons

C.126.Caçada - Chico Buarque


Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu terror
Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador
Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
E num mesmo impulso me expulsa e abraça
Nossas peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador
De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pelo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

S.058.Se eu fosse o teu patrão - Chico Buarque


Eu te adivinhava
E te cobiçava
E te arrematava em leilão
Te ferrava a boca, morena
Se eu fosse o teu patrão
Ai, eu te tratava
Como uma escrava
Aí, eu não te dava perdão
Te rasgava a roupa, morena
Se eu fosse o teu patrão
Eu te encarcerava
Te acorrentava
Te atava ao pé do fogão
Não te dava sopa, morena
Se eu fosse o teu patrão
Eu te encurralava
Te dominava
Te violava no chão
Te deixava rota, morena
Se eu fosse o teu patrão
Quando tu quebrava
E tu desmontava
E tu não prestava mais não
Eu comprava outra, morena
Se eu fosse o teu patrão
Pois eu te pagava direito
Soldo de cidadão
Punha uma medalha em teu peito
Se eu fosse o teu patrão
O tempo passava sereno
E sem reclamação
Tu nem reparava, moreno
Na tua maldição
E tu só pegava veneno
Beijando a minha mão
Ódio te abrandava, moreno
Ódio do teu irmão
Teu filho pegava gangrena
Raiva, peste e sezão
Cólera na tua morena
E tu não chiava não
Eu te dava café pequeno
E manteiga no pão
Depois te afagava, moreno
Como se afaga um cão
Eu sempre te dava esperança
D'um futuro bão
Tu me idolatrava, criança
Seu eu fosse o teu patrão

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

D.086.Deixa a menina - Chico Buarque


Não é por estar na sua presença
Meu prezado rapaz
Mas você vai mal
Mas vai mal demais
São dez horas
E o samba tá quente
Deixa a morena contente

Deixa a menina sambar em paz
Eu não queria jogar confete

Mas tenho que dizer

Cê tá de lascar

Cê tá de doer

E se vai continuar enrustido
Com essa cara de marido

A moça é capaz de se aborrecer
Por trás de um homem triste
Há sempre uma mulher feliz
E atrás dessa mulher
Mil homens sempre tão gentis

Por isso para o seu bem

Ou tira ela cabeça
Ou mereça a moça que você tem
Não sei se é pra ficar exultante
Meu querido rapaz

Mas aqui ninguém
O agüenta mais

São três horas

E o samba tá quente
Deixe a morena contente